Alpes Suínos
Quem escuta pela primeira vez dá risada. Mas quanto mais tempo passo no Oeste de Santa Catarina (serão 18 temporadas contando com essas férias de julho), mais acho que a comparação faz sentido.
Não que os lugares sejam iguais, mas despertam sensações parecidas.
Durante boa parte da infância e da adolescência, tive a sorte de visitar a Suíça quase todos os anos. E existe uma diferença enorme entre conhecer um lugar e voltar para ele repetidamente.
Na primeira visita, você vê a paisagem. Nas seguintes, começa a enxergar o tempo. As montanhas continuam ali. Os vales também. Mas as pessoas mudam.
O professor da escola de esqui ganha cabelos brancos. O restaurante troca de geração. Os filhos assumem o negócio dos pais. A criança que brincava na neve passa a chegar dirigindo.
O lugar permanece. A vida passa por ele.
Talvez seja por isso que o Oeste Catarinense me lembre tanto a Suíça.
Tem cavalos e vacas espalhadas pelos campos. Tem os porquinhos nas granjas. Tem o queijo colonial que ocupa na mesa um espaço parecido com o do raclette. Tem uma beleza que não grita, mas aparece em cada propriedade cuidada, em cada jardim arrumado, em cada cidade que parece funcionar do jeito que deveria.
Tem também algo mais difícil de explicar.
Uma cultura de trabalho bem feito. De gente que acorda cedo. De famílias que constroem coisas ao longo de décadas e de sobrenomes que atravessam gerações.
Na Suíça, você encontra hotéis administrados pela mesma família há mais de cem anos.
No Oeste, encontra propriedades, cooperativas e empresas carregando a história de quem veio antes.
Em ambos os lugares existe uma sensação parecida de continuidade. Como se o tempo passasse sem pressa. Como se as coisas fossem construídas para durar.
E talvez seja isso que eu mais gosto. Além dos queijos, das vacas e dos porquinhos, a oportunidade de voltar.
Voltar tantas vezes a um mesmo lugar faz com que ele deixe de ser um destino e passe a fazer parte da sua história.
Porque lugares novos nos mostram o mundo. Mas são os mesmos lugares, visitados ao longo dos anos, que nos mostram o tempo e, de vez em quando, nos mostram quem estamos nos tornando enquanto ele passa.
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1603 — 19/06/2026, p. 2. Ver a edição (PDF).
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