As Marcelas
Nome que carrega a guerra e a cura, e uma semana em que vi gente fazendo a sua parte.
Marcela é um nome que não se decide. De um lado, vem do latim Marcellus, de Marcus, raiz de Marte, o deus romano da guerra: quer dizer "pequena guerreira", aquela que se dedica à luta. De outro, marcela é uma florzinha amarela do campo, dessas que nascem na beira da estrada e até em terra cansada, que a gente seca e ferve para acalmar o estômago e fazer dormir. O mesmo nome guarda a espada e o remédio.
Passei a semana pensando nisso por causa de duas casas.
A primeira foi a Octávio House, no encontro da UniãoBR. O título desta crônica, aliás, nasceu ali: é que há duas Marcelas na liderança do movimento, e o plural me pareceu perfeito para o que vi. Porque o trabalho da UniãoBR é exatamente a dupla natureza do nome, guerreiras que curam. Tatiana, Antônia e Marcella Monteiro de Barros tocam a frente, mas o mérito é de um time inteiro. Quando o Rio Grande do Sul foi engolido pela água, quando as chuvas castigaram cidade após cidade, foram dessas mãos que saíram as pontes entre quem podia ajudar e quem precisava. Mobilizar e insistir é a guerra. Socorrer e reconstruir é a cura.
Quem abriu foi o Nizan, falando de talento. Da obrigação, quase moral, de não deixar o nosso talento morrer. Se você é bom advogando, advogue. Se é bom comunicando, comunique. Se sabe captar, capte. Marco Aurélio dizia o mesmo com outras palavras: levante e vá fazer o trabalho que é seu. Talento engavetado é desperdício.
Na mesma sala estava a Defesa Civil dos Estados, gente com a rotina difícil de verdade: sirene, lama, madrugada, decisão que é vida ou morte. Lembrei de quantas vezes deixamos uma reunião tensa ou uma meta nos tirar o sono, como se fosse o fim do mundo. Epicteto separava o que depende de nós do que não depende, e quase todo o nosso sofrimento mora no que inventamos por cima do que dá para resolver. Esforço não é sofrimento. Ver quem enfrenta o desastre real cura a gente do desastre imaginário na agenda corp.
A segunda casa foi a ACTC, a Casa do Coração. Há trinta anos ela acolhe crianças e adolescentes com cardiopatia grave que vêm de todo o Brasil se tratar em São Paulo, e acolhe também as mães. A celebração da semana foi rara no nosso país: a renda do fundo patrimonial da ACTC já cobre um terço do custo anual da casa.
Aprendi a fábula dos dois sapos que caem numa tigela de leite. Um desiste, para de se mexer e afunda. O outro bate as pernas sem parar, e de tanto bater o leite engrossa, vira nata firme, ele se apoia e salta para fora. Foi o que a liderança da ACTC fez nesses anos, e o que a UniãoBR faz a cada ocorrência: insistir e persistir até que o impossível ganhe consistência debaixo dos pés. Cuidado virando permanência. Absorver de uma vez para distribuir para sempre.
Saí das duas casas com a mesma sensação: ninguém precisa salvar o mundo inteiro, precisa fazer a sua parte, onde está.
Individualmente, não deixe morrer o seu talento.
Como empresários e profissionais, construa coisas que durem, gere emprego e valor e, quando puder, transforme generosidade em patrimônio, porque causa que depende de aplauso fecha as portas no primeiro inverno.
Como cidadãos e como governo, lembre que sociedade civil e Estado não são adversários. A Defesa Civil, o SUS, a UniãoBR e a ACTC são o mesmo tecido, e a democracia funciona quando cada fio segura o seu pedaço.
A marcela, a flor, não se acha grande coisa. É miúda, amarela, nasce na beira do caminho e, ainda assim, cura. O convite da semana é esse: não precisamos ser gigantes, precisamos ser Marcelas. Pequenos guerreiros que curam, cada um no seu campo.
Faça a sua parte.
#changingyourday
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1602 — 12/06/2026, p. 2. Ver a edição (PDF).
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