Carta ao Pai
80 anos CFJ
"Vão bora, vão bora... que está na hora, vão bora, vão bora. Em Brasília, seis horas. Repita: em Brasília, seis horas." Era um alarme daqueles pretinhos, com números vermelhos brilhando no escuro. Aparecia 6:00. O AM ficava pequenininho lá em cima. Era nesse ritmo que meu pai despertava.
Com o Jornal da Manhã da Jovem Pan ao fundo, saía de um colchão duro, ruim de dormir para uma criança como eu naquela época, mas delicioso para o Leo de 40 anos de hoje.
A rotina corrida dele não permitia que tivéssemos muito tempo juntos ao longo da semana. Então nos encontrávamos com frequência nas noites de NBA, esporte que eu nem gostava naquela época. Ele jantava, ia para a varanda fumar seu charuto e conversávamos por horas até irmos juntos para a cama.
Eu e ele. Entre tantas memórias possíveis, as que mais sinto são esses chamegos do adormecer e do despertar juntos. Ora em casa. Ora em seu avião. Bem louca a rotina mesmo. Homem de energia alta. Altíssima, na verdade.
Talvez você já tenha andado pelas ruas asfaltadas com as britas de uma antiga pedreira na divisa de Diadema que ele administrava. São Paulo crescia descomedidamente e ali ele ganhou bastante dinheiro pela primeira vez.
Talvez você já tenha aberto alguma porta com uma das milhares de fechaduras La Fonte espalhadas pelo país. Talvez tenha passado pelo Portal do Morumbi. Talvez tenha frequentado o Iguatemi Faria Lima e esperado, na Praça do Relógio, aquelas bolas verdes subirem e descerem como um experimento de ciências em escala gigantesca. Talvez tenha passado horas falando ao telefone para alguém de outro estado. Talvez tenha o hábito de parar em uma padaria para um pão na chapa em alguma cidade do Norte ou Nordeste.
Em tudo isso, de algum jeito, ele está por aí. Não sei se ele é especialista em algo. Mas que tem um dom e uma energia incomparável para fazer as coisas acontecerem e prosperarem, ele tem.
Como toda máquina empresarial brilhante, seu caminho não foi calmo. Nem brando. Talvez você o tenha enfrentado e sentido o peso de sua presença. Não fisicamente. Ele nunca teve esse tipo de força.
Falo do poder que emana de suas mãos, de seus anseios, de sua determinação, de sua capacidade de não sentir quando entende que não deve sentir e de seguir sem olhar para trás.
Seu pragmatismo, seu foco em destravar o que interessa, sua capacidade de articulação, sua coerção quando necessária, sua visão sobre o que precisa acontecer e quem precisa estar ao lado para que aconteça. Sua capacidade de execução. De resolver. De fazer.
Talvez você tenha participado de alguma reunião memorável com ele. Talvez ele tenha saído da sala no exato momento em que o problema foi resolvido, deixando todos os demais discutindo o que já não lhe interessava. Talvez tenha sido firme em uma sequência lógica de cobranças e, ao perceber que havia consistência nas respostas, simplesmente relaxado.
Talvez você tenha aprendido com ele a controlar tudo nos mínimos detalhes ao observar um império sendo construído diante dos seus olhos. Uma escola que não microgerencia, mas conhece cada canto daquilo onde se enfia.
Talvez você tenha conhecido sua capacidade singular de desenhar estruturas societárias complexas, onde o controle permanece e os custos são compartilhados.
Talvez você seja supersticioso. Ele é muito. Daqueles que vão da numerologia a cumprir promessas feitas por terceiros. Minha avó fazia isso com ele. Algumas vezes passou por Fátima, em Portugal, sem sequer saber que estava pagando uma promessa que não era sua.
Talvez você goste da Disney como ele gosta. Durante anos, carregou em sua pasta dois ingressos válidos para os parques. Se uma brecha surgisse entre uma viagem de negócios e outra, ele escapava para algumas horas de encantamento.
Talvez você seja apaixonado pelo mar. Das costas mais charmosas da Europa às praias cearenses, ele conheceu muitas. Mas foi em Angra que encontrou sua realização plena. Lá estavam os empresários que admirava. Lá estavam os barcos. Lá estava um sonho antigo. E talvez tenha sido ali que pôde dizer para si mesmo: "Cheguei."
Talvez você seja decididamente urbano. Ele é. Cem quilômetros para fora de São Paulo já costumam representar uma tranquilidade excessiva para o seu gosto. Ele não é do mato.
Talvez você goste de doces. Mas teria que gostar muito. Ele é uma formiga ambulante. Sua gororoba clássica era uma colher generosa de Nescau, uma lata de leite condensado, creme de leite, sorvete de chocolate e farofa de sorvete. Mistura tudo. É quase possível medir seu amor por açúcar pela receita.
Talvez você seja piloto profissional há anos e ainda assim tenha voado menos horas do que ele acumulou ao longo das últimas décadas. Talvez conheça menos países, menos aeroportos, menos hotéis. Tudo nele parece operar em escala gigante.
Talvez você seja médico. E ainda assim conheça menos sobre a relação entre remédios, sintomas e limites do corpo humano. Como os antigos médicos de família, bastavam poucas palavras para que ele começasse a montar um diagnóstico.
Seu coração também é grande. Muito grande. Vou tropeçando em histórias e descobrindo trabalhos silenciosos que ele realiza há décadas. Gosto de entender a sociedade pela lente das pessoas. E quando vou observando os lugares que ajudam a sustentá-la, encontro seus rastros: em grandes universidades, hospitais, instituições dedicadas ao câncer, ao coração, à cultura, à arte e à fé.
Seu pai se foi cedo. Tinha 46 anos. Ele, 17. Talvez boa parte da sua energia venha daí. Da ausência que resolveu preencher construindo empresas, patrimônio e oportunidades. Construindo para que não faltasse.
São inúmeras as homenagens espalhadas pelo país ao seu pai. Avenidas, ruas, monumentos, escolas. Um impacto de escala nacional.
Lendo tudo isso, parece estranho dizer que ele é um homem simples. Mas é.
A quase quarenta mil pés de altura, seu café da manhã preferido continua sendo pão francês com ovos mexidos enrolados em papel alumínio.
A trilha sonora muda pouco. Frank Sinatra segue sendo companhia constante. Um bom whisky ajuda a conversa. Bons vinhos também. Generoso, ele serve aos que considera capazes de apreciá-los.
E até hoje sabe exatamente quanto vale cada real. Casado três vezes, chega aos 80 anos ao lado de sua esposa, sua sogra, cinco filhos, quatro netos e seis netas.
Nós, filhos, seguimos seus caminhos: Trabalhando. Empreendendo. Estudando...
...e construindo. Como aprendemos a vê-lo fazer.
Esse é o meu presente de 80 anos para você. Aprendi a ler melhor por sua causa. Aprendi a falar melhor por sua causa.
Ainda guardo o Harry Potter e a Pedra Filosofal que me deu aos 11 anos. Tive a sorte de crescer em seu colo emprestado. E a alegria ainda maior de ver meus filhos encontrarem abrigo nos seus abraços.
Deu tempo. Escrevo estas linhas durante um evento sobre wellness e longevidade, no JK.
Vida longa, meu velho.
E ainda sobre tempo, como é bom poder viver estes tempos só nossos. Um a um. Na sua sala. No seu estar. Como naquela época.
"Vão bora, vão bora... que está na hora, vão bora, vão bora. Em Brasília, seis horas." Desta vez, PM. Desfrutar é merecido.
Leo Jereissati*
23/06/2026
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1604 — 26/06/2026, p. 12. Ver a edição (PDF).
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