Enquanto é Tempo
Tem uma fase da vida em que as conversas de família começam, aos poucos, a mudar de assunto. Entram no vocabulário palavras que antes pareciam pertencer aos outros: cirurgia, recuperação, médico, hospital, exame, risco.
Ao mesmo tempo, começamos a acompanhar aqueles que estão mais adiante na estrada. Alguns enfrentando doenças difíceis. Outros realizando vontades antigas, quase como quem diz ao tempo que ainda não terminou. Uma viagem, um lugar que faltava conhecer, um desejo guardado por anos.
E nós, no meio disso tudo, fazemos o que sabemos fazer: nos preocupamos. Tentamos prever, controlar, organizar e antecipar problemas que talvez nem aconteçam.
Foi então que, na saída de uma consulta dessas, aconteceu uma pequena inversão de papéis. Quem tinha acabado de receber a notícia de uma cirurgia grande estava tranquila. E quem estava preocupado era justamente quem não precisava operar.
No caminho veio quase uma aula: “Você precisa levar a vida mais leve.”
Engraçado como passamos boa parte da vida achando que os mais velhos precisam dos nossos conselhos, até percebermos que, justamente quando o corpo começa a impor alguns limites, eles podem ter entendido coisas que nós ainda estamos tentando aprender.
Talvez envelhecer também seja descobrir que nem tudo precisa ser resolvido hoje. Que algumas coisas realmente se encaixam, outras não, e tudo bem. A vida vai ficando menos sobre controlar o que vem pela frente e mais sobre estar inteiro onde se está.
Talvez por isso uma viagem possa ser tão importante aos 80, uma conversa depois de uma consulta aos 70, um almoço demorado aos 40 ou uma brincadeira no chão aos 5. O relógio é o mesmo. O valor de cada hora é que muda.
A gente costuma imaginar que a consciência do tempo deveria nos deixar tristes. Talvez seja justamente o contrário. Saber que passa é o que dá graça.
Se o verão fosse eterno, ninguém repararia no primeiro dia de sol. Se as crianças não crescessem, talvez não déssemos tanta importância a colocá-las no colo. Se as pessoas fossem ficar para sempre, talvez adiássemos ainda mais aquele almoço, aquela viagem, aquele abraço.
A finitude não é apenas o que tira. É também o que dá valor.
No fim, talvez viver leve não seja viver sem problemas. Isso ninguém consegue. É entender que haverá consultas, cirurgias,
despedidas, viagens, sustos, reencontros e domingos absolutamente comuns.
E que a vida não começa quando tudo isso estiver resolvido. A vida é tudo isso acontecendo enquanto é tempo.
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1613 — 28/08/2026, p. 2. Ver a edição (PDF). Também no canal do WhatsApp.
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