Um Saco de Frutas
Domingo, 19h. Estou em Concórdia, Santa Catarina, como fazemos quase todos os julhos há muitos anos. O inverno aqui é rigoroso e delicioso para quem vem de São Paulo.
Toca a campainha. É o vizinho de porta. Meu impulso natural é desconfiar antes mesmo de saber do que se trata. São Paulo nos ensina isso. Tudo é tão grande, tão rápido, que acabamos aprendendo a preservar uma certa distância. Passei, pasmem, quinze anos morando no mesmo apartamento sem saber o nome de três famílias diferentes que ocuparam o imóvel em frente ao meu. Foi só depois que nasceu meu filho que isso começou a mudar. Com pouco mais de um ano, ele resolveu fazer amizade com o gato da vizinha canadense e, por causa dele, acabei conhecendo quem morava do outro lado do corredor.
De volta a Concórdia, a cena é outra. O rapaz, com a simplicidade de quem nem imagina que está fazendo algo extraordinário, disse à minha sogra que havia acabado de voltar do sítio e tinha trazido limão, laranja umbigo e pocã para ela e para nossa família. A quantidade era generosa.
Para quem trabalha com Frutas, Legumes e Verduras no marketing, aquilo ali, em um supermercado do Itaim, custaria facilmente algumas centenas de reais. Mas a história não tem nada a ver com dinheiro.
Tem a ver com comunidade. Em cidades menores, seu vizinho não apenas sabe quem você é. Ele participa, ainda que discretamente, da sua rotina. Conhece sua família, sabe quando você chegou, quando foi viajar, quando vale a pena deixar um saco de frutas na sua porta porque voltou do sítio e lembrou de você.
Curiosamente, há quem ache isso um pesadelo. Preferimos, cada vez mais, viver protegidos atrás de portas, fones de ouvido e telas. Dividimos nossos anseios com podcasts, terapeutas de GPT, enquanto muitas vezes deixamos de construir relações com quem mora a poucos metros de distância.
Talvez estejamos resolvendo nossa solidão pelos canais mais sofisticados possíveis enquanto abandonamos os mais simples. Desta vez, não. Hei de retribuir esse carinho.
Porque gentileza tem uma característica rara: ela quase sempre volta. Às vezes em forma de conversa, às vezes em forma de amizade e, às vezes, em um simples saco de frutas deixado na porta de casa.
Ser gentil talvez seja um dos dons mais elegantes que um homem pode cultivar. Viva.
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1608 — 24/07/2026, p. 2. Ver a edição (PDF). Também no canal do WhatsApp.
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