Entre Ciclos
Quando uma mulher dá à luz, ela ilumina o mundo com mais um pequeno ser. Sem saber, essa criança chega também para trazer à tona questões que deixamos abertas na vida adulta, muitas vezes inconscientes, e que retornam com força no convívio diário de um casal. Os filhos, inocentes, escancaram nossas sombras, e nós não esperávamos exatamente por isso ao concebê-los.
Nasce um bebê. Nasce uma nova chance para todos. Um réveillon fora de época. Mas nem sempre as coisas saem como imaginávamos.
Às vezes, um filho tão desejado não vem. Há o puerpério. Outras vezes, filhos que vieram se distanciam. Irmãos deixam de conversar. Relações se rompem onde antes tudo era puro, verdadeiro e íntimo. Os negócios e a casa se misturam, se confundem. Quando vemos um pai ou uma mãe esmagando seus filhos pequenos, custa acreditar que a vida seja capaz de afastar pessoas que começaram tão conectadas.
De repente, com quarenta anos bem vividos, olho para trás e para frente sem saber se cheguei ao primeiro terço ou se já ultrapassei a metade do tempo que terei por aqui. Isso não me assusta. Me aterrissa.
É o “Deus que dança”, de Nietzsche. Aquele que não promete controle nem certezas, mas convida a afirmar a vida como ela é: impermanente, contraditória, em movimento. Um Deus que não endurece diante do trágico, mas segue dançando, apesar dele.
E então o tempo ganha outra densidade.
Quanto da nossa vida gastamos discutindo na internet, apagando spam no e-mail, esperando o Brasil se ajustar, reagindo ao ruído? Tempo que poderia estar sendo usado para quê, se a “Dona Morte” passasse agora avisando que voltaria amanhã? Que escolha você faria? Com quem estaria?
Sabe a tartaruguinha do Discovery Channel?! As inúmeras circunstâncias que a impedem de chegar ao mar pela primeira vez? A vida é dura para todo mundo. Ela tira algo de um e dá esse algo a outro, o tempo todo. Uma luta diária, coletiva, pela sobrevivência.
Talvez fechar um ano seja isso: não fazer mais listas nem promessas grandiosas, mas olhar com honestidade para o que a vida tirou e decidir, com coragem, o que ainda vale a pena buscar.
A vida tira e a vida dá. Cabe a nós buscar sentido, presença e reconciliação antes que o tempo feche a conta.
Talvez seja justamente essa capacidade de olhar para trás, de entender de onde viemos e como nos tornamos quem somos, que nos falte quando olhamos para frente rápido demais. Você já perguntou para sua mãe como ela se sentiu em um momento-chave da vida dela? Para o seu pai, como foi sua infância e como seus avós se relacionavam com ele? O quanto você sabe sobre as suas origens?
Essa tal de ancestralidade é danada… quando começamos a escutar as respostas, parece um “liga-pontos”: uma coisa conecta na outra até formar uma figura que antes não existia, no caso, você mesmo, agora visto por outro ângulo.
Talvez este seja também um momento histórico de aprender a pausar. Não só na vida individual, mas como sociedade. A inteligência artificial deixou de ser apenas ferramenta e passou a ser força. Avança rápido, aprende sozinha, escala sem pedir licença. O próprio “padrinho da IA” defendeu algo raro hoje: parar para perguntar se é seguro seguir como está e se queremos seguir juntos com essa super-inteligência.
Que 2026 nos encontre mais presentes do que apressados. Com coragem para pausar, sabedoria para escolher e generosidade para seguirmos juntos.
Rumo precede Ritmo.
Saúde, Paz e um Feliz Ano Novo.
Leopoldo Jereissati
Especial de fim de ano, enviado pelo autor à sua lista de contatos. Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1579 — 24/12/2025, p. 13 (Especial). Ver a edição (PDF).
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