Por que nos encontramos no final do ano, e não durante?
Há um frenesi intenso na agenda de dezembro. É evento em cima de festa, jantar para todo lado, do balé da filha à troca de faixa, da festa da firma às confraternizações dos grupos de WhatsApp (quer dizer, de amigos). E, para muitos, ainda tem o Natal antecipado para conciliar todas as famílias nesses rituais e encontrinhos.
Tem um lado de mim que adora essa confusão. Só vai. A gente vai dormindo menos, bebendo mais, a voz vai acabando e o coração ficando cheio.
Mas existe outro lado que me faz refletir. Que coisa é essa? Por que não nos encontramos ao longo do ano? Com mais qualidade, calma, preços melhores etc.?
A verdade é que dezembro é a hora de ver todo mundo. E, ao longo do ano, vemos apenas quem escolhemos e quem nos escolhe, a dedo.
Talvez dezembro funcione como uma espécie de auditoria emocional. Uma revisão geral das nossas relações: quem continuou por perto, quem ficou distante, quem faz falta e quem a vida mesma tratou de afastar. É o mês em que olhamos para a lista de contatos como quem revisita as gavetas de casa, encontramos lembranças, algumas poeiras e, às vezes, gente que nem sabíamos que ainda morava ali.
E também tem algo de ritual. Mesmo quem não é religioso sente esse impulso de fechamento: de colocar a vida em ordem, de reencontrar, de celebrar. Como se dezembro fosse um suspiro coletivo antes do próximo capítulo. Um lembrete silencioso de que, apesar de tudo, seguimos juntos ou pelo menos tentando.
No fim, talvez a resposta seja simples: nos encontramos no final do ano porque é quando lembramos que o tempo passa. E que, no meio de tanta pressa, é preciso criar pausas para olhar nos olhos.
Que bom seria se espalhássemos um pouco de dezembro pelos outros meses. Mas, enquanto isso não acontece, que ao menos saibamos aproveitar esse caos afetivo, essa bagunça bonita que fecha um ciclo e abre espaço para o próximo.
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1578 — 19/12/2025, p. 2. Ver a edição (PDF).
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