O que fazer na Quarentena?
Ler.
Essa semana fui diagnosticado com Covid. Quando percebi que iria ficar dentro de um quarto por alguns dias em sequência, nem de férias e nem podendo trabalhar, aproveitei para ler. Somados desde 1/1/22 foram 6 livros no total:
Pequeno Príncipe — St Exupery
Terra dos Homens — St Exupery
Meditações — Marco Aurélio
A Vida não é Útil — Ailton Krenak
Sólo Fértil — Josh Tickell
Breves Respostas para Grandes Questões — Stephen Hawking
O que mais me motiva a ler coisas diferentes são os cliques que do nada acontecem. Como que o livro escrito por St Exupery publicado em 1939 conversa com o tema da escassez de água entre outros tão relevantes do livro Sólo Fértil de Josh Tickell publicado em 2017? Como duas visões opostas sobre o futuro da humanidade podem ser tão gostosas de imaginar e por que não considerar em aprender com as duas pontas como a do físico Stephen Hawking e do índio Ailton Krenak? Como os Estoicos lá da época do império Romano escreveram coisas que estamos vendo acontecer da mesma forma até os dias de hoje?
Alguns aprendizados que mexeram com a minha cabeça:
Sobre independência de fato e a água.
St. Exupery — piloto e escritor, em Terra do Homens, perdido no deserto do Saara já há alguns dias após acidente aéreo com seu engenheiro e desesperado por um gole de água nos diz:
“ — Não me sabia assim prisioneiro das fontes. Não suspeitava ter uma tão curta autonomia. A gente pensa que o homem pode ir andando para a frente. Pensa que o homem é livre… Não se vê a corda que o prende ao poço, que o prende, como um cordão umbilical, ao ventre da terra. Se dá um passo a mais, morre.
Resumindo, para além de um governo ou do controle de vacinas, somos controlados pela presença de água potável — apesar de ainda não termos de fato percebido isso. Comecei a ler mais sobre os efeitos da agricultura moderna nas bacias hidrográficas em geral no livro Sólo Fértil. É impressionante o impacto direto que a atividade agrícola tem sobre a qualidade da água. Temos que exaltar mesmo aqueles que fazem direito porque este é um problema complexo, daqueles bons de se envolver. Lobby, grandes corporações, fertilizantes, meio-ambiente, mudança climática, fortunas e para variar tudo em nome de resolver o principal problema— que seria o fazendeiro — deixado por último, cada vez mais quebrado.
Ressignificando limites.
Stephen Hawking, em Breves Respostas para Grandes Questões, considerando o paradoxo da sua enorme limitação física conhecida e sua capacidade incomparável de imaginar, nos diz:
“ — Eu passei minha vida toda viajando pelo universo dentro da minha cabeça”
Nessa hora eu me questionei se o estereótipo de limitado seria a figura dele ou a minha. Um cara capaz de imaginar, matematicamente moldar e portanto viajar por todo o espaço em um instante é limitado? Mesmo alcançando a velocidade da luz levaríamos 50.000 anos para chegar em alguns pontos em que ele levava segundos com a mente. Há de se considerar também a capacidade dele de chegar a lugares que fisicamente seriam improváveis, como por exemplo na borda de um buraco negro cuja matéria não pode resistir. Em suma o cara conseguia criar um ambiente de realidade virtual dentro da cuca, o Metaverso ficou um pouco sem graça perto disso depois.
Um Planeta sem Ego
Ailton Krenak, em A Vida Não é Útil, traz um outro olhar para tudo o que está acontecendo. Do preconceito do cara que abraça árvores para, sim, eu abraço as árvores e converso com elas; não entendo o porque você ainda não!
“ — Quando o último peixe estiver nas águas e a última árvore for removida da terra, só então o homem perceberá que ele não é capaz de comer seu dinheiro” — Wakya Un Manee
Sob o aspecto que o índio vê o mundo e provavelmente toda outra espécie que não a nossa (sapiens) também, não há nada de soberano entre o ser humano e o resto. Somos mais vistos como uma praga do que como algo bom para o equilíbrio da natureza. Ele aponta de forma direta como a Terra não precisa de força para acabar com a gente, basta nos tirar o ar (a exemplo da primeira onda da pandemia). Ele critica com maestria a lógica do modelo que escolhemos como humanidade para continuar, a economia inclusive. Ele fala sobre “parar de nos desenvolver e começar a nos envolver” ao “olhar para o nosso interior e não para o trem que está passando lá fora” — o cara mora no meio ali próximo ao Rio Doce — MG, esse trem a que ele se refere é o da Vale.
Sobre a salvação da humanidade.
Olha como é bom sair da polaridade e enxergar visões opostas sobre um mesmo contexto. Sobre a salvação da humanidade, o Krenak diz que “a maior parte das invenções é uma tentativa de nós, humanos, nos projetarmos em matéria para além de nossos corpos. Isso nos dá a sensação de poder, de permanência, a ilusão de que vamos continuar existindo.” Ele senta o pau nos empresários que estão na corrida espacial para chegar em Marte e etc. e pede por mais atenção e mudanças radicais para o que sempre fomos, pré era industrial. Já Hawking, diz o seguinte: “Estou convencido de que os humanos tem que deixar a Terra. Se ficarmos aqui, corremos o risco de sermos aniquilados.” Como a trajetória dele aponta, é um grande entusiasta de viagens pelo espaço e afirma, matematicamente que, “se a humanidade quiser permanecer por outros 1 milhão de anos presente, nosso futuro depende radicalmente em chegarmos a lugares onde ninguém jamais chegou” — se referindo aqui a outras galáxias com planetas com condições de encontrar vida similares às da Terra. Para apimentar ainda mais, Hawking entende a máquina como nova forma de vida e portanto e bem provável na visão dele que no futuro elas aprendam a se reproduzir e a evoluir, a minerar e buscar tudo o que for necessário para proliferar e portanto seguir como uma nova espécie mais adequada a vida no espaço (inteligência artificial).
E ambos concluem:
“Onde há vida, há esperança”. — Stephen Hawking
“Ou você ouve a voz de todos os outros seres que habitam no planeta junto com você, ou faz guerra contra a vida na Terra”. — Ailton Krenak
Sabedoria e Poesia.
As últimas sinergias estão entre Pequeno Príncipe e Meditações. Antes de qualquer detalhe entre eles vale a similaridade do intuito das obras: ler para de alguma forma nos tornarmos seres-humanos melhores. São tantas frases e passagens que fica difícil pontuar, são “livros de cabeceira”. Pelo momento de vida que estou agora, coloco algumas que mais me chamaram a atenção do Pequeno Príncipe e reservo uma outra crônica só para dissertar sobre Meditações:
“É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar” — St Exupery
Tem frases mais conhecidas no livro, eu sei. Essa vale para que a gente pare de tentar extrair de alguém algo que não vai vir dali. Marco Aurélio diz a mesma coisa ao se referir ao “fruto do figo em uma figueira” — é o que devemos esperar certo?! Estranho seria se desse uma laranja no pé…
Outras do Pequeno Príncipe:
“É bem mais difícil julgar a si mesmo do que julgar os outros. Se consegues fazer um bom julgamento de ti, és um verdadeiro sábio.”
Rapaz, eu ando cansado de ver as pessoas apontando o dedo ao invés de chamar a responsabilidade. Míopes acham que o problema está sempre no outro, no emprego, no chefe, no cliente, na esposa, no filho, etc. É um exercício importante e difícil cortar esse hábito mas só faz bem para você a medida que vai evoluindo.
“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”
Eu tinha lido essa frase num post de um amigo homenageando o avô que partira. Não imaginava que vinha daqui também, Pequeno Príncipe. O mais legal dessa frase é o conforto que ela trás para os que ficam e provavelmente para os que vão.
Para fechar, voltando a Terra dos Homens, o cara com a boca seca no deserto tendo alucinação atrás de miragem; depois de achar que ia pro saco mesmo, sem esperança nenhuma, o que lhe sobrou de desejo: a socialização. Em outro grau mas em contexto semelhante a nós reclusos forçosamente pela pandemia nos últimos anos.
“ — Só há um luxo verdadeiro, o das relações humanas.” — St Exupery
Veja, eu não possuo habilidade de leitura dinâmica. O que decidi fazer foi trocar meu tempo no instagram durante a semana pela leitura (pre-covid). Estou fechando o mês de janeiro entendendo um pouco mais e dando mais valor para a água que eu bebo, para o solo onde piso e para a natureza. “Põe o lixo lá fora” mudou para mim. Não existe mais lá fora. Tudo eh aqui dentro do mesmo planeta.
“A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar.” — St Exupery
A natureza me cativou.
Ps: Pai de primeira viagem, ver seu bebê de 4 meses arder em febre — e saber que não se trata de uma febre comum — é de uma sensação de impotência tremenda; sem igual. Impotência similar ao que temos sobre o tempo; vamos celebrar e viver agora. Dá vontade de dizer, passa para cá de novo filho, papai pega mais cinco vezes para você não precisar passar por isso; mas não é assim que funciona a vida.
Publicada originalmente no Medium. Ver no Medium.
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