Férias
Um estado de espírito.
O anúncio do governo de São Paulo que haveria mais uma onda de decretos e restrições de horários para o comércio entre março e abril foi um duro baque para mim. Quando me dei conta já passara mais de um ano de atividade intensa e desenfreada em home-office, longas jornadas de trabalho e conectividade jamais vista entre a hora de acordar e de dormir. Meu nível de atenção, ânimo e desempenho nos seguidos *calls *com clientes e equipe estavam abaixo do que costumo entregar, quase não dava intervalos entre um compromisso e outro e estava ficando cada vez mais difícil suportar, pasmem, os momentos de pausa entre os compromissos. Acho que quando você chega num grau que não consegue se aguentar, que fica osso conviver consigo mesmo é um sinal de alerta:
“— Pede pinico!”
…meu pai nos fazia dizer, brincando, quando era pequeno e não podia mais suportar a dor da zoeira que fazia comigo. Para mim, essa foi a gota d’água para eu lembrar do que estava precisando: férias. Meu stress estava tão alto que até para achar o lugar para onde viajaríamos me deixava ansioso e angustiado. Praia? Serra? Hotel? Airbnb? Sul? Frio? Preço? Disponibilidade? Que *vibe *errada. Precisei escutar um “ — Cara, você tá surtado” em casa para entender a real necessidade de um reset; urgente.
Com mais sorte do que juízo, achamos o Chalé das Oliveiras em São Bento do Sapucaí. Palavras não podem descrever a simplicidade desse lugar. Para quem entende simplicidade como genialidade, o projeto é simplesmente genial. É minimalista em essência. Esteticamente bonito e adequado, não interfere à paisagem e tem tudo o que você precisa para passar alguns dias a dois: desde os utensílios disponíveis às experiências dentro da casa. Luz natural entra por tudo sem incomodar o sono tranquilo de quem gosta da escuridão. A cama tem tamanho e colchões gostosos. Lençóis, toalhas e cantinhos da casa são limpos, cheirosos e novos. Esse lugar foi feito com amor e com sabedoria.
— Quem bolou esse projeto? Perguntei ao simpático casal de anfitriões.
— Minha filha é arquiteta. A Manu; dizia o pai. Ela morou em Barcelona e tem um café chamado Botanikafé em São Paulo com o marido. Conhece? — Eles me perguntavam orgulhosos já esperando minha validação, que sim. E de fato, eu e minha esposa, à convite de um casal de primos, fomos em um lugar super descolado com quadras de *beach tennis *ao lado da Marginal Pinheiros — bem coisa que paulistano gosta — lugar que tira a gente da cidade sem sair do bairro.
Na chegada na serra, há cuidado dos anfitriões com a visita e há histórias por todo o Sítio Lótus da nascente de água ao plantio das oliveiras. Eu, como comunicador, gostei da história do Jacu. Aprendi que esse pássaro tem um dom natural de escolher os melhores grãos de café de um pé para comer e por pura sorte e/ou cagada (literalmente), deixou de presente dois ou três pés de cafés aqui no sítio para o casal. Estão esperando amadurecer (ficar vermelhinho) para poder colher e provarem seus próprios grãos essa safra.
Tem gente que gosta de gente e tem gente que gosta d’agente. Nós batemos o santo com eles, pelo sufoco que estávamos na cidade em regime de restrição e a abertura deles em nos receber aqui, pela decisão deles de viver no campo e nosso sonho ainda não esclarecido de escapar da cidade e pela forma como levam a vida. Também pela simpatia e pela afinidade. Tem coisa que não dá para explicar, o cara gosta de facas e eu também. Quer dizer, eu gosto de facas; o cara entende delas. Me apresentou duas marcas gringas, sendo uma chamada Opinel — tradicional de alpinistas franceses.
Vale dizer também que agora ele começou a fazer suas próprias facas, com madeira de oliveira e aço de roçadeira velha. Batendo esse papo com ele, percebi que basta se interessar para ir descobrindo o que te faz sorrir e se sentir mais vivo. Ele me mostrou uma base de concreto e uns quatro palanques:
— Aqui vai ser tipo um depósito para guardar ração dos cachorros, e uns insumos do sítio. É minha primeira construção.
Apontou para longe, lá embaixo da propriedade:
— Mais para frente quero fazer um laguinho ali embaixo.
Apontou para o pomar:
— Quando chegamos aqui em 2013 era só pasto, a gente que plantou tudo (tem um pomar e boa variedade de árvores por aqui).
Apontou para cabeça dele mesmo:
— Dono de sítio é assim, cheio de ideias. Tive uma ideia — aí já era… é coisa para fazer que não acaba mais.
Nesse momento eu vos escrevo de pijamas perto das quatro e meia da tarde, recebendo uma brisa fresca da natureza, olhando da sacada uma vista deslumbrante para a Pedra da Balança. No alto dessa pedra tem uma cruz que é tão pequenininha vista daqui de baixo que nem parece a mesma que vimos durante a trilha que fizemos ontem. Ver a cruz daqui debaixo e lembrar dela de lá de cima, poder olhar daqui para lá e de lá de volta para cá me ajudou a refletir sobre a brevidade da vida.
Daqui para lá. De lá para cá.
Esse livro separa com clareza e profundidade a diferença de tempo e vida. Para muitos só se nota a diferença quando é tarde demais; de certa forma nos deixamos ser levados e dedicamos nosso tempo à tantas coisas e pessoas e obrigações que não nos tornam mais vivos e por motivos ingênuos abrimos mão daquilo que “não volta mais e é dado como certo”: o tempo. Seneca viveu e escreveu esse livro em tipo 40 depois de Cristo, mas poderia ter recebido esse PDF por whatsapp dele hoje tamanha atemporalidade da mensagem.
Não consegui me desconectar 100% ainda nas férias como fiz há quatro anos na minha lua de mel, mas estou conseguindo curtir cada momento com mais presença. Estou mais leve, recharging. “Eu moro onde você passa suas férias” ainda está longe das minhas possibilidades mas “ir na quarta e trabalhar de lá” é meu novo FDS.
Publicada originalmente no Medium. Ver no Medium.
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