Multidão a Sós
Conectados e Afastados
“Solidão a dois” é um tema bastante conhecido e explorado na arte, literatura e na música. E a solidão a dois mil? Isso é novo. Se puder, antes de começar a ler esse artigo, aperta o play e o repeat dessa música: Solidão — Bada. Presta atenção na letra. Esse *single *é o início de um trabalho original de uma pessoa incrível. Essa originalidade vem do caos “de uma geração que vem lutando para tentar entender seu próprio *status-quo *em meio a tanta criação e destruição simultânea”.
This is Bada — Now streaming on Spotify
Estamos nos sentindo cada vez mais isolados apesar da alta conectividade e presença constante nas redes sociais. O despejo desenfreado de informação promove um mix intenso e bruto na nossa cabeça e no nosso corpo. Stress, dor de estômago, medo, desconforto e incerteza… tanta coisa e tudo de uma vez só. No paralelo o número de *followers *e *following *ficam cada vez maiores.
“As pessoas não saem do celular mais”
Note também que há uma infinidade de apps para resolver tudo sem esclarecer nada: um para se exercitar, um para se organizar, um para ler, um para ouvir, um para assistir, e por aí vai. Hoje em dia sentimos fome, sede, a falta de *likes *e o medo de acabar a bateria. Há um tempo me senti enturmado, pois fiz uma sessão live de mindfulness junto com outras 115 pessoas. Junto? Sozinho eu não estava, pois outros usuários estavam online comigo nessa experiência. Foi esquisita a sensação… deu um frio na barriga no começo, como antes de entrar em um lugar que não conhece ninguém, mas assim que o “professor” começou a falar eu notei que era uma gravação e os usuários não eram identificados. O número de pessoas só aumentava ao longo da sessão mas para mim ficou um grande vazio.
Minha sessão live com avatares usuários do app de meditação.
Os ambientes virtuais são parte da nova realidade; combater é bobagem — aprender a conviver e se adaptar é sábio. O ideal talvez seja nos tornarmos seres híbridos — nem fully digital, nem *fully offline. *Por exemplo, esse vazio me estimulou a começar meu primeiro “66 day challenge”. Escolhi fazer meditação guiada junto com a minha esposa via apps de meditação. As aulas eram virtuais mas estávamos fisicamente juntos na maioria dos dias. Em uma dessas ocasiões, no feriado na Bahia, colocamos a sessão em uma caixinha de som na praia com mais 3 amigos. Quando abrimos os olhos, tinham mais duas senhoras que pararam por ali e aproveitaram a “aula” para meditar com a gente. Saiu todo mundo feliz em cerca de 10 minutos. Rápido né?! Ali tive a certeza que acertara a mão no caminho, pelo menos mais saudável e humano. On e Off podem e devem caminhar juntos.
Aprender a lidar com isso é bastante novo e complexo. A sociedade começa a sentir as consequências de toda essa transformação aos poucos, dolorosamente. Tanta informação e projeção de nossas melhores virtudes e ausências de defeitos nos afasta definitivamente da realidade. Meu sogro, fora das redes, escutando as angústias dos sobrinhos e da nossa geração soltou uma hoje durante um churrasco: “A mentira vem de Ferrari, a verdade no lombo de um burro”. Daria para contextualizar essa frase para “A mentira vem num post, a verdade em um abraço”. No mesmo papo escutei de um amigo sobre a consequência da vida nas redes: “felicidade hoje se resume em ser mais feliz que o outro” — essa doeu no âmago mas tem verdade aí; infelizmente.
Devagar, mas chega.
“Que tanto você faz nesse celular?”
Em um café da manhã de negócios na semana passada, nos apresentaram a migração da tendência FOMO para JOMO. FOMO significa “fear of missing out”, ou seja, o medo de perder qualquer coisa que esteja acontecendo faz com que nós estejamos constantemente no celular e conectados. A exaustão física e mental está nos levando para a JOMO. JOMO significa “joy of missing out”, ou seja, o prazer de perder parte do que está acontecendo no mundo agora é o máximo.
https://www.youtube.com/watch?v=ifz0a3bx1HE
Acho que dá para encerrar esse artigo estimulando a reflexão de Alain de Botton abaixo:
“The challenge for a human now is to be more interesting to another than his or her smartphone” — Algo como “O desafio do ser humano agora é ser mais interessante para o outro que o smartphone dele(a)”.
O contato humano, *tête-à-tête, *ainda é a ferramenta mais poderosa de alimentação da alma. Põe nessa conta o contato com a natureza (fauna e flora) e terás uma explosão de presença. A meta é encurtar a distância que existe entre o que se passa na sua cabeça e o que de fato está se passando. Se ainda assim sentir-se só, lembre-se de que estamos juntos.
“If you’re alone, then we’re together” — Janks
Post Scriptum:
Eu gosto de me puxar sempre, fazer coisas novas, criar novos hábitos, enfim — experimentar e me testar. A meditação eu escolhi depois de voltar da Singularity University e ver esse gráfico abaixo, da atividade cerebral de alguém que medita há 15 anos vs. alguém que não, e depois de ler Principles do Ray Dalio e ele dizer que a melhor coisa que ele poderia indicar para nós humanos era a meditação.
Seu cérebro pode ficar assim em 15 anos.
Publicada originalmente no Medium. Ver no Medium.
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