Ervilha Torta & Coxinha
Uma aula de vida e vendas
Todo mês realizamos um jantar beneficente em prol da Passos Mágicos no Fleming’s, restaurante de um grande amigo e colaborador do projeto. A gente junta um monte de pessoas legais para levantar recursos e ajudar mais de mil crianças carentes à estudar. Oferecemos aulas de português, inglês e matemática além de apoio psicológico e psicopedagógico no contraturno escolar — a gente arruma a cabecinha delas que em geral convivem em um ambiente bastante hostil e conturbado em casa para que possam aflorar por si e descobrir que a vida pode ser transformada através da educação. Quanto mais ajudamos os outros, mais as pessoas ajudam a gente.
Nessa toada, surgiu um cara muito legal. Jovem, discreto, gente finíssima querendo fazer parte da turma mais ativa que apoia o projeto. O grupo empresarial dele é forte e poder agregar todo seu know-how na diretoria da Passos Mágicos nos faz sonhar grande sobre onde podemos chegar um dia juntos. Como o ambiente do projeto é bastante familiar, é natural que os pais de quem chega no grupo queiram saber mais sobre o que essa molecada (eu inclusive) está aprontando. Aqui que entra a Coxinha nessa história.
Em um ato de grandíssima generosidade, o pai deste amigo nosso se propôs a fazer um jantar exclusivo para os amigos dele. Só quem organiza jantares beneficentes sabe o desafio que é conseguir convidar e efetivamente fazer com que as pessoas venham até o evento. Nós estamos nessa batalha há quase dois anos e a cada jantar aprendemos mais sobre como e o que melhorar para o próximo. Com uma agenda super atribulada e pouquíssimo tempo até a data marcada para organizar, este tão aguardado jantar teve uma quebra muito grande de convidados. Quem trabalha com eventos ou já fez uma festinha em casa para alguém sabe que essa hora dá um arrepio enorme pois de um lado há uma frustração em relação à expectativa do que poderia ser e do outro há uma frustração maior ainda do anfitrião no meio dessa incômoda situação; fica um mix de esperança que alguém ainda possa chegar com uma moderna inquietude no Whatsapp — bombando de mensagens com *puxões de orelhas *pra todo lado. Nesse momento é que entra a Ervilha Torta; o único convidado, além de nós da organização e anfitriões, a chegar acompanhado de sua esposa.
Todo o roteiro padrão do evento tivera que ser quebrado nesse momento pois não fazia sentido seguir com um modelo de palestras para um jantar com todo potencial de tornar-se intimista. Aí a capacidade incrível do fundador e porta-voz da ONG de improvisar e de se adaptar.
— Junta as mesas aqui, e vai servindo o vinho que vamos conversando.
Ainda sem sabermos muito o que falar, veio a sorte maior do que o juízo. Sentados na mesa frente a frente, com um sorriso largo e carismático, totalmente a vontade e superando qualquer desconforto com os fatos, a Ervilha Torta perguntou à Coxinha:
— Você já escreveu um livro sobre a sua história?
— Ainda não. Você já?
— To indo pro meu terceiro.
— Então conta para nós um pouquinho dessa história ué…
— Não sei se vocês sabem, mas eu sou de Joanópolis. Conhece Joanópolis?
Uma das formas mais eficazes de gerar empatia é despertar o senso de pertencimento. Eu não conhecia Joanópolis, mas sou apaixonado pelo interior do Estado de São Paulo.
— A cidade mais perto ali de referência é Bragança Paulista. Eu sou da roça sabe. Fui criado no campo mexendo na terra mesmo, carpindo, preparando o plantio e tal. Minha família sempre foi muito unida, a gente gostava de sentar em volta da mesa para comer bem e falar sobre os negócios. Era um papo sadio sobre quem levava vantagem sobre quem e isso me estimulava: — Ó, eu já vendi minha safra toda. E você? — Eu ainda não. — Ó, comprei um terreno ali do lado. E assim a coisa ia.
Eu ficava prestando atenção no mercado local e todo ano via que o povo plantava as mesmas coisas. Se fosse ano de milho, todos plantavam milho e o preço do milho era baixo na hora de vender porque todo mundo tinha. Se fosse ano da soja, todos plantavam soja e o preço da soja era baixo na hora de vender porque todo mundo tinha. Um dia eu já encucado com isso, resolvi ir até uma casa de produtos agropecuários local e conversando com o vendedor, resolvi que iria plantar ervilhas. Eu nunca havia plantado ervilhas, não tinha a menor ideia de como faria o plantio e acompanharia o processo todo. A única coisa que me movia era imaginar que eu seria o único a ter ervilhas da região.
Enquanto a lavoura crescia, minha empolgação estimulava meu lado comerciante e portanto resolvi, sabiamente, ir reservando partes da colheita para o varejo local. Ia em um supermercado e vendia X quilos, outro atacadista Y quilos, mercadinhos menores Z quilos, e assim vendi toda a minha safra antes mesmo dela estar pronta. Já bastante empolgado com o futuro que estava por vir, jovem ambicioso pensei: “Vou poder comprar meu Fusca”.
— Talvez o maior símbolo de progresso de um jovem rapaz à época era comprar um Fusca. O que havia de mais moderno entre as possibilidades, um objeto real de desejo.
Chegada a hora da colheita, o que era doce, se acabou. As sementes brotaram algo diferente do esperado, não eram ervilhas normais, eram ervilhas tortas. Estas que por sua vez tinham até um valor agregado maior no preço do quilo, porém um tempo de colheita menor do que a padrão; ou seja: perdi toda a safra. Tive que devolver o dinheiro para todos os compradores e esquecer o Fusca. Quase explodi de tanta raiva comigo mesmo só de imaginar aguentar a pressão de ter falhado defronte toda a família que já andara questionando minha ousadia versus a praxis que seria ter plantado o que todos os outros haviam.
Na época, eu ainda muito jovem, fiquei desesperado. Não sabia muito o que fazer depois do ocorrido. Tudo parecia andar tão bem, meu instinto empreendedor parecia estar fazendo sentido e de repente fiquei sem chão. Em um ato de desespero, resolvi ir pra São Paulo, trabalhar em um boteco na Casa Verde com um amigo que jamais imaginaria que me juntaria um dia: o danado do Zé Capeta. Ali eu fui de tudo: chapeiro, atendente, garçon, etc. Depois, já fora dali virei maitre e sommelier. Foi o início de uma trajetória que me levou ao grupo Fasano, escola que sou eternamente grato por ter me desenvolvido, me treinado na Itália e me transformado profissionalmente no que me tornei hoje.
No auge da minha carreira, financeiramente organizado e com boa reputação onde estava, me lembrei de uma frase que meu tão amado avô sempre dizia na nossa família:
“— Homem com 35 anos tem que estar prumado”
Ou seja, com uma direção definida do que desejar fazer na vida.
Com isso em mente, e já próximo de chegar nesta idade, resolvi empreender. Olha se não é o destino?! No meio desta jornada, encontrei um ponto ideal nos Jardins para abrir a minha primeira loja e fechei a negociação do imóvel ainda sem ter dinheiro para pagar e sócios para contribuir. Na corrida contra o tempo, em uma breve passagem na Itália, bem nessa época, descobri que ervilha em italiano se chamava Piselli. Como não homenagear aquela que desde muito jovem me estimulou a fazer tudo o que fiz para me tornar o que sou. Acreditem, abri a primeira loja no dia do meu aniversário em que completei meus 35 anos.
No meio dessa prosa toda, aprendi pelas palavras de sua avó, o significado da palavra “Lhar”. Lhar é aquele benevolente, que não regula, que dá tudo de si para agradar ao próximo. Talvez essa seja a grande virtude traduzida em um simpático sorriso caipira que cativou tanta gente ao longo de sua trajetória. Uma delas foi meu pai, que por afinidade e oportunidade o convidou para abrir sua nova loja no shopping: “Conhecia ele há tempo; do Gero — foi um dos fundadores do TRE. Quando tive a oportunidade, chamei-o.” Que bom tê-lo por perto.
Para você ter uma ideia de quão power foi esse jantar, a Coxinha é o “Rei das Franquias”, um dos *Sharks *em um dos programas mais legais da TV atualmente. Foi muito bonito poder vê-lo ao lado de sua esposa, juntos há cerca de 30 anos, e escutar da boca dela o início difícil e suado deste homem que saía por Assis-SP vendendo as coxinhas feitas pela sua mãe, Dona Alzira, e que não sossegava até conseguir transformar a dura realidade que era sua vida:
“—Quando eu comprar o Fusca, eu vou na sua casa pedir sua mão em casamento para o seu pai.” - Dizia ele para ela, que gozava de uma vida já mais organizada financeiramente. No momento ela dizia, “Meu Deus isso vai demorar”; no fundo ela sabia que ele iria conseguir. Há alguns meses saiu na Vejinha segurando uma coxinha e uma garrafa de vinho dos bons: “—Sou a prova viva de que qualquer um poder ganhar milhões”. Inquestionavelmente uma inspiração para muitos empreendedores brasileiros em busca de um lugar melhor ao sol. Em um comentário na sua conta do instagram, disseram: “Coxinha com Vinho não combina” — e outro usuário logo respondeu: “Uma história linda dessas combina com tudo”. De acordo.
No final do jantar, a Coxinha juntou cerca de seis recibos de doação e colocou os nomes dos amigos que não vieram e uma quantia generosa mas não onerosa como compromisso financeiro para os ausentes com o projeto. Um ato de improviso, de empreendedorismo. Uma solução aos 45 do segundo tempo. Ora se não é isso o que fazem empresários bem sucedidos. Não desistem nunca. A forma como fez, o valor que propôs, tudo com muita naturalidade de um vendedor perspicaz. Em dois anos ainda não havíamos pensado em ofertar este “valor mágico” que facilita a tomada de decisão de doadores.
Obrigado aos dois por mais uma aula no MBA da vida.
Publicada originalmente no Medium. Ver no Medium.
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