Tio Beto
2008 foi o ano em que ele descobriu que eu estava namorando uma moça do Oeste Catarinense. Entusiasmado, chegou para mim e disse: “Bepo, tu vai me usá hoje? Sinón eu vou lavá só us pé.” Demorei a entender a piada, mas “Bepos” virou o nome carinhoso da minha família. E essa eu devo a ele.
Muito antes disso fomos sócios, eu, meu irmão e ele, de um posto de gasolina no shopping de Campinas. Nos anos 90, forneceu flores daqui de Holambra para shoppings pelo Brasil. José Roberto Held foi muitas coisas e fez muitas coisas diferentes na vida. Sempre teve orgulho do sobrenome holandês.
Mas minhas memórias vão mais longe. Uma casa, uma vitrola na sala, um jardim, Mix Vigor com Choco Krispis e um Dobermann preto, meio bravo.
Com a voz rouca e os dedos amarelados de tanto cigarro, dizia: “Cadê o Leopoldinho, ô nó cego, vem cá co tio.” E me dava um abraço gostoso, uma dançadinha, sorriso no rosto, calça jeans e aquele sapatinho alemão de couro preto, sem meia.
Em 2017, na noite do meu casamento, eu e meus primos irmãos, Beta e André, seus filhos, dançávamos embriagados passadas três ou quatro da manhã. Eis que surge na pista um homem de banho tomado: “Estou pronto, vamos embora!”
Estávamos numa praia afastada de Florianópolis e o próximo voo só sairia no fim do dia. Quem tinha perdido a noção? Ele, p da vida àquela hora, ou nós fazendo “tchu tchu” em volta dele, celebrando ele e a vida? Ele abriu um sorriso, deu meia volta e subiu de novo para o quarto.
Enquanto escrevia, diferente com certeza do momento em que vocês estão lendo, ele seguia em uma ambulância em Campinas. De volta para, quem soubera, sua batalha final. Descansou.
Meu pai e ele sempre foram muito amigos e sei que, à maneira deles, puderam trocar algumas últimas palavras nessas semanas.
Ranzinza como sempre foi,
disse que não podia partir sem conhecer a Itália. Então lá se foram filha, genro e família levá-lo para essa grande realização.
Ele sempre me quis muito bem. E eu sempre quis ele muito bem também.
“Vamos nos ver mais vezes, tio.”Esse era o desejo. Mas a vida vai ficando cheia e a gente vai deixando para o próximo almoço, aniversário, viagem. Como se sempre houvesse uma próxima vez.
— Vamos dançar, tio?
“Nón, nón. O Bepo dança cuma espiga de milho nos bólso.”
Meus sentimentos à família Held.
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1617 — 25/09/2026, p. 2. Ver a edição (PDF). Também no canal do WhatsApp.
Uma crônica por semana, direto no seu WhatsApp. Sem spam, sem pressa.
Seguir o canal