Tá nervoso? Vá pescar...
Vou começar logo com uma história de pescador: na turma que vou, não tem bagunça.
Tem gente que vai pela bagunça. Tem gente que vai para espairecer. Tem gente que encontra na pescaria um jeito de encontrar a si mesmo.
Tem cara que é viciado no esporte. Tem gente que não sabe a diferença entre isca e anzol. Tem pirarucu, pirarara, jaú, cachorra, piranha, tucunaré. E tem a piraíba, talvez o maior troféu de quem se aventura pelos grandes rios brasileiros.
Com exceção dos tucunarés e de alguns outros mais afoitos, os grandes peixes de rio levam horas para beliscar a linha.
Você joga a isca e espera. Olha para a vara. Olha para a água. Conversa. Fica em silêncio. Come alguma coisa. Olha de novo para a vara. Nada acontece.
Talvez seja justamente esse tédio que eu esteja buscando.
A gente ficou muito ruim de esperar. Se o elevador demora, pega o celular. Se alguém vai ao banheiro no meio do jantar, pega o celular. Até um sinal vermelho parece tempo demais para simplesmente olhar pela janela.
Na pescaria não adianta. O peixe não sabe que você tem pressa.
Nesta noite, no meio do rio, olhamos para cima e vimos dezenas de pontos luminosos atravessando o céu perfeitamente alinhados. Eram satélites da Starlink.
A cena era linda e um pouco irônica. Estávamos no meio do nada, procurando a sensação de estar longe de tudo, enquanto lá em cima passava uma das maiores obras de engenharia já construídas para garantir que ninguém mais esteja realmente longe de nada.
Satélites tão distantes, trabalhando para nos deixar cada vez mais perto.
Não há nada de errado nisso. É extraordinário poder trabalhar de qualquer lugar e falar com alguém do outro lado do mundo. O problema talvez não esteja na conexão, mas na nossa incapacidade de desligá-la.
Porque algumas coisas ainda obedecem a outro relógio. Uma conversa boa demora. Uma amizade demora. Criar um filho demora. Construir uma empresa demora. Entender alguma coisa sobre si mesmo demora.
E uma piraíba também. Você não controla o rio, não controla o peixe e não acelera a mordida. Só resta estar ali.
No fim, a piraíba pode até não vir. Mas depois de algumas horas olhando para a água, você começa a desconfiar que o troféu nunca foi exatamente o peixe. Tá nervoso? Vá pescar.
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1611 — 14/08/2026, p. 2. Ver a edição (PDF). Também no canal do WhatsApp.
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