O que o trânsito sabe sobre nós
Não é tão difícil perceber a diferença entre países. A comida muda, a língua muda, a arquitetura muda. Mas existe um lugar onde as culturas se revelam sem maquiagem: o trânsito. Nos Estados Unidos, por exemplo, uma placa de Stop faz o carro parar completamente, mesmo quando não há ninguém passando. Já no Brasil, muitas vezes ela é interpretada de forma mais flexível: reduzimos, avaliamos a situação e seguimos. Não estou dizendo que um jeito é melhor que o outro. Apenas que cada comportamento conta uma história diferente sobre a relação de uma sociedade com regras, confiança e autonomia.
O mesmo acontece dentro do próprio Brasil. No oeste de Santa Catarina, por exemplo, basta uma criança se aproximar da faixa de pedestres para que carros, ônibus e caminhões parem. É um acordo silencioso que torna a cidade mais segura e, talvez por isso, mais livre para quem vive nela. Quando um carro não para, muitas vezes nem é preciso olhar a placa para saber que veio de fora. O trânsito acaba revelando hábitos coletivos que raramente aparecem em pesquisas ou discursos.
Quando viajamos para lugares ainda mais diferentes, a comparação fica fascinante. Na Índia, a primeira impressão é de caos absoluto: motos, carros, bicicletas, pedestres e buzinas ocupando o mesmo espaço. Mas, observando melhor, percebe se uma enorme capacidade de adaptação. Tudo funciona por negociação contínua. Já em Tóquio, especialmente no cruzamento de Shibuya, milhares de pessoas atravessam ao mesmo tempo e quase ninguém esbarra em ninguém. O que parece desordem em um lugar e disciplina extrema em outro é, no fundo, apenas uma forma diferente de coordenar a convivência humana.
Mas o trânsito não revela apenas quem somos como sociedade. Revela também quem somos naquele dia. Há motoristas que aceleram, fecham e disputam cada metro como se estivessem travando uma batalha pessoal. E há dias em que todos nós corremos o risco de virar esse motorista. Minha mãe sempre dizia: "Filho, dá passagem para o motoboy". Às vezes consigo. Às vezes não. Porque o volante tem uma estranha capacidade de colocar para fora aquilo que estamos carregando por dentro.
Uma vez, chegando ao Sul depois de alguns dias em São Paulo, minha mãe me olhou e disse: "Leo, você ainda está no ritmo do engarrafamento". Ela tinha razão. Meu corpo já havia chegado, mas minha mente continuava acelerada. Talvez seja por isso que gosto tanto de observar o trânsito quando viajo. Mais do que carros se movendo, ele mostra como as pessoas dividem espaço, respeitam acordos, lidam com a pressa e convivem umas com as outras. No fim, cada cidade dirige exatamente como aprendeu a viver.
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1600 — 29/05/2026, p. 2. Ver a edição (PDF).
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