Uma nova mosca pousou por aqui...
Hoje cedo li uma frase que me travou por alguns segundos: existe uma mosca da fruta andando por aí que nunca nasceu.
Não é metáfora. É experimento. A partir do mapa cerebral de uma mosca real, criaram uma simulação capaz de reproduzir seu comportamento. Parece só uma curiosidade científica, mas não é sobre a mosca.
É sobre nós.
O que mais assusta nesse tipo de avanço talvez não seja o medo apocalíptico. É o medo da inutilidade. Se a tecnologia começar a fazer o mundo funcionar melhor do que nós, e ainda nos livrar de quase toda necessidade prática, o que sobra para o ser humano?
Boa parte da nossa dignidade sempre esteve em ser útil. Levantar, resolver, cuidar, construir, melhorar. A espécie humana não foi feita só para contemplar. Foi feita para agir.
Talvez o verdadeiro risco de um futuro eficiente demais não seja o caos, mas o vazio. Um mundo em que tudo funciona, mas ninguém sabe mais por que levantar da cama.
No fim, a mosca que nunca nasceu traz uma pergunta bem humana: se até a vida começa a ser simulada, o que continua sendo só nosso?
Talvez a resposta esteja menos em produzir e mais em dar sentido. Amar. Cuidar. Escolher. Assumir responsabilidade.
Porque, mesmo num mundo de máquinas, uma tarefa seguirá sendo nossa: decidir por que viver. A Vó Ilda dizia que o segredo da longevidade era dormir pensando no que teria que resolver ao acordar.
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1590 — 20/03/2026, p. 2. Ver a edição (PDF).
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