Oii, tudo bem?
Pela primeira vez na história a gente está conversando com uma outra espécie usando a mesma ferramenta que a gente usa entre nós: a linguagem.
Estou falando da Inteligência Artificial. E é aí que mora a confusão. Porque quando alguém fala bonito, responde rápido, parece seguro e ainda faz piada, o nosso cérebro faz o que ele sempre fez pra economizar energia: ele humaniza. Ele coloca cara, intenção, emoção. Ele antropomorfiza.
Só que a IA não é um ser vivo. Ela não tem corpo. Ela não tem infância. Ela não tem medo. Ela não tem desejo. Ela não tem aquela parte invisível que faz a gente ser gente. Ela não pensa como a gente pensa. Ela calcula. Ela prevê. Ela completa. E às vezes isso parece pensamento. Mas não é.
Eu vi um vídeo esses dias que achei perfeito. A pessoa estava com um copo de cabeça pra baixo e pediu pra IA sugerir um jeito de beber o líquido dali. E ela não sugeriu o mais óbvio: virar o copo. A gente ri, mas é uma risada didática. Porque a IA não viveu o mundo. Ela não derrubou água no chão. Ela não limpou a bagunça. Ela não aprendeu do jeito que a gente aprende, no corpo, na tentativa, no erro, na vergonha e no acerto.
Um amigo meu, consultor de tecnologia, me deu uma metáfora que eu guardo com carinho. Ele disse assim: a IA é como um ser humano em coma profundo. Ela fala, mas está fechada num quarto. Ela não tem acesso ao mundo. Não tem janela. Não tem pele. Não tem experiência. Ela pode soar confiante. E ainda assim estar desconectada do real.
E eu estou escrevendo isso por um motivo simples. Pra gente não entrar em pânico. Sim, vai mudar o que fazemos. Sim, vai mudar como fazemos. Sim, vai acelerar tudo. E sim, vai substituir tarefas. Mas não vai substituir a nossa responsabilidade. Não vai substituir o nosso julgamento.
Não vai substituir o nosso gosto. Não vai substituir o nosso olhar. Não vai substituir a nossa coragem. Não vai substituir a nossa presença. E principalmente não vai substituir aquilo que ninguém consegue copiar direito: a relação humana.
Só que tem um alerta importante aqui. Cuidado com a confiança que a gente deposita nela.
Especialmente quando o assunto é saúde. Especialmente quando o assunto é medicina. Especialmente quando tem filho, pai, mãe, corpo, dor, decisão.
Ela ajuda. Ela organiza. Ela dá ideias. Ela pode até te preparar pra uma consulta. Mas ela não pode ser a consulta. Porque ela não assina embaixo.
Ela não responde por você. Ela não carrega as consequências. E tem mais uma coisa que eu não quero que a gente esqueça.
Nós somos sociais. Não rede social. Sociais de verdade.
Gente precisa de gente. Precisa de conversa que não vira texto. Precisa de olho no olho. Precisa de encontro sem pauta. Precisa de silêncio acompanhado. Precisa de risada no mundo real.
Então eu te proponho uma coisa. Que tal dar uma voltinha hoje? Sair um pouco da tela. Andar cinco minutos. Cumprimentar alguém. Ver a vida acontecendo. Lembrar que o mundo existe fora do prompt e voltar mais humano do que você saiu.
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1586 — 20/02/2026, p. 2. Ver a edição (PDF).
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