Rodo de Pia
Quando decidi morar sozinho, meu pai me deu um rodo de pia.
Lembro de olhar para aquilo e não pensar nada demais. Apenas agradeci, colei o adesivo que o prende na parede e encaixei o rodinho ali, todo branquinho.
Dezesseis anos depois, ele é o mesmo. Já não é mais branco, está malhado de tantas manchas, mas hoje faz muito mais sentido.
Por muitos anos lavei minha própria louça, todos os dias, sem nenhuma rede de apoio. E lá estava ele, meu parceiro. Na pandemia, aos domingos de faxina, a louça era comigo. E lá estava o rodinho.
A vida andou. Formei minha família.
Chegou minha namorada, que virou noiva, esposa e mãe dos meus filhos.
Mudamos de apartamento. Outra cozinha, outro endereço, outras pessoas usando a pia. E lá está o rodinho. Às vezes, para desestressar, sou eu quem lava a louça.
Com o tempo, entendi que aquele rodo nunca foi sobre a pia. Era sobre não terceirizar o essencial. Um lembrete silencioso de autonomia, de dignidade e de presença. De que a vida também acontece nas pequenas tarefas, repetidas, feitas sem plateia.
Acho que o rodinho me ajuda a manter os pés no chão. Uma certa humildade diante da vida. Ele me permite desfrutar o que conquistei sem esquecer que, se for preciso, ele estará ali e eu também para fazer o serviço.
Publicada no Jornal da Cidade de Holambra, edição 1582 — 23/01/2026, p. 2. Ver a edição (PDF).
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