Leopoldo JereissatiFala Man

17 jul 2022 · 4 min de leitura · Medium

The Forever Now

…a faísca que faltava para o despertar

Em um discurso durante o casamento de sua irmã, na última temporada da série This Is Us, o personagem Randall (Sterling Brown) fala sobre o tempo e sua relativização.

“ — Um ano para uma criança pode ser um quinto da vida dela portanto as férias de verão duram uma eternidade”.

Ele coloca isso logo após uma conversa angustiada com o marido de sua mãe, Miguel — já no terço final da vida, com um potencial Parkinson acelerando. O convite que Randall faz em seu discurso é para que nós tentemos nos manter o maior tempo possível no presente.

Logo em seguida entra Rebecca (Mandy Moore), sua mãe no piano — já com Alzheimer adiantado — em um clima de total apreensão dos que estavam a volta se daria certo ou não o número ensaiado em função da incerteza de seus recentes e totais desconectares com o contexto.

**[Pausa] Coloque play nessa canção : **https://www.youtube.com/watch?v=MK4zeSjvxoE apresentada na cena em questão, enquanto continua a leitura…

O verso que me chama a atenção fala o seguinte:

They say time will tell But I think it likes to keep secrets So we’ll wait and see But it’s just as well The years can be counted in seconds And that’s fine with me

— composta por Siddhartha Khosla / Taylor Goldsmith

Nesse momento, embalados pelos últimos episódios da série que estamos acompanhando desde o início, eu e minha esposa, e entendendo o paralelo com a mensagem do capítulo em si que vem apontando para o fim da vida, como um ciclo; nos veio a seguinte reflexão (qual conversamos aqui jogados no sofá de casa relaxando enquanto nosso filho tirava uma de suas sonecas do dia):

Quanto estamos buscando de materialidade no nosso dia a dia? Há um certo prazer de visualizar a realidade do outro. Me refiro ao recorte que aparece na rede social dos nossos amigos, familiares e influencers. Quanto tempo da nossa vida dedicamos para assistir um filme, uma série, a história do outro…Qual a razão de tempo que estamos vivendo entre as histórias dentro de uma tela e a nossa?!

Há um conflito que vem aumentando em mim recentemente entre o viver e o postar que ando pegando no detalhe. As vezes os avós vem visitar o neto já com a câmera ligada antes mesmo de dar um abraço e um beijo nele. Sem nenhum julgamento aqui, só uma questão de priorização fora de ordem. No estádio, com meu sogro, precisei filmar o lance da falta para enviar no grupo do Zap, pois assistir ao vivo e aguardar o próximo encontro com alguém para jogarmos conversa fora não nos é mais oferecido. Não há mais tempo para esse tipo de coisa. Por quê? Dá para amenizar isso ao menos?

Acho que a minha geração, que pegou o analógico ainda e que passou a infância sem smartphone, a mesma que hoje não consegue sair de casa sem o celular, eu inclusive, vive com um pé em cada canoa.

Paramos para refletir quão gostosa foi nossa ida ao Ibirapuera ontem a tarde em que estendemos um tapete na grama para o nosso filho brincar com outras crianças desconhecidas e seus cachorros, pisando na grama e tomando uma leve bolada na cabeça de um amiguinho mais velho.

Quão mais difícil é para ele dormir quando não saímos do apartamento. Quão distante estamos da natureza, da luz do sol, da água e som da chuva no alto desses arranhas-céus. Toda noite eu “ativo o loop de som” da Alexa no quarto dele e peço para tocar o som da chuva (como ruído branco) para facilitar o sono dele. Temo que um dia ele chegue para mim e diga: — Papai, olha o som da Alexa! Quando se deparar em uma noite de chuva na fazenda de verdade…

A gente precisa ajustar nosso grau de conexão. E não está fácil fazer isso sozinho. Desafio físico, mental e financeiro.

Se manter no presente é um pedido do Randall e também a dica que o Guilherme Benchimol dá em um papo com o Ricardo Amorim que assisti essa semana.

“ — Passa tudo muito rápido. Se eu pudesse voltar no tempo eu teria aproveitado melhor cada momento, cada fase que a empresa passou; a gente tá sempre com a cabeça lá na frente buscando o próximo passo, as metas e etc.” — no final da entrevista em uma pergunta que ele mesmo se faz, a pedido do Amorim.

Uma frase de Sêneca para fechar a semana:

“Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida.” — Sêneca

Publicada originalmente no Medium. Ver no Medium.