Sogra
Nasce um filho, nasce mais uma…
Foi em uma ultrassonografia da minha esposa no laboratório de exames que um Dr. muito engraçado, soltou essa: “ — É assim Leopoldo, sem você perceber, que acontece: nasce um filho, nasce uma sogra!”.
Não há um único ser que não tenha feito alguma zoeira com a sua, já que são alvos constantes de piadas e xingamentos alheios. Também é verdade, para muitos, que essa relação é de fato complicada. Segundo psicólogos entendidos do tema, são cinco principais reclamações que fazemos delas: serem manipuladoras e sempre quererem a atenção, não darem espaço para a vida do casal, se intrometerem nas decisões da família, terem ciúmes do filho(a) e também de não nos apoiar em nada. Esse não é o meu caso e é sobre a relação que tenho com a minha que quero contar para vocês.
Quando conheci a minha sogra, em uma festa da família deles em 2008, ela foi super gentil comigo e discreta. Me acolheu sem dar muita moral, do jeitinho dela. Nossa relação sempre foi muito tranquila, de muito respeito acima de tudo. Filha feliz, ela feliz; filha brava, ela — sem precisar falar nada — tomava as mesmas dores para ela. Pelo fato de morarmos em cidades diferentes, nossos encontros mais duradouros aconteciam durante feriados prolongados e as férias de verão; ela sempre muito ocupada nas funções da família tínhamos breves momentos mais profundos de conversa.
Com o passar dos anos, como em qualquer relação de amor, fomos ganhando mais a confiança mútua. Fato é, e essa é apenas uma percepção minha, que quando pedi a filha dela em casamento — e portanto ficou subentendido que era séria a minha intenção ali — ela se abriu como uma flor e demos um grande passo na intimidade e cuidado um com o outro. Apareceram em nossa rotina momentos de escape quando por acaso ficávamos sozinhos e conversávamos sobre tudo o que ela desejava. Aprendi que ela encontrava em mim uma opinião mais isenta para poder refletir sobre alguma decisão que estivesse prestes a tomar.
Cozinheira de mão cheia, faz “o básico muito bem feito”, como descreve minha mulher. O básico quem diz que é básico é ela, para mim é basicamente tudo o que eu gosto de comer. Ela é uma mulher firme em suas convicções e como água em pedra, com o tempo vai conseguindo encontrar o caminho para que as coisas aconteçam como ela imaginou e se não acontece, ela dificilmente cede. Pequena grande mulher o negócio dela é ficar ao lado dos mais frágeis. No sentido literal, ela é engajada com a comunidade através da igreja e ajuda constantemente quem mais estiver precisando naquele momento entre as irmãs, filhos ou o marido — e isso quem me despertou a atenção foi este último.
Minha mulher e ela se falam todo santo dia pelo telefone. Imagino que seja assim desde os 16 anos da Lu, quando teve que sair logo de casa para estudar. Eu sinceramente admiro essa relação de amizade pura e verdadeira. Há tantas histórias de mães e filhas que competem, essas duas se completam. Aqui em casa sempre escutei: “ — Eu quero aproveitar ao máximo meus pais enquanto estão jovens e firmes” e acredito que o nascimento do nosso primeiro filho tenha proporcionado momentos especialíssimos entre essas duas nos últimos 60 dias.
Quando comentei na roda de amigos que minha sogra passaria dois meses na minha casa nos ajudando com o recém-nascido foi um divisor de águas: parte se desesperou: — Você tá fu…! Parte ficou enormemente aliviada: — Você tá feito! Para minha alegria, estive feito. Nessa aventura de pai e mãe de primeira viagem, infinitas dúvidas passam pelas nossas cabeças desde os sons esquisitos que o bebezinho faz durante a noite, até como vão ser os dias seguintes ao sono picotado dos pais e a conciliação disso com o trabalho e a rotina da casa que não cessam. De repente, como alguém que já havia passado por essa experiência três vezes na vida como mãe e tantas outras como tia, minha sogra parecia saber tudo o que estava prestes a acontecer e com maestria deixava tudo ajeitado para a tranquilidade do bebê, da filha e minha também.
Para a Luiza teve muita companhia boa e dieta especial todos os dias, com menos tempero e com bastante milho (polenta) para enriquecer a qualidade e o volume da produção do leite materno. “ — Quanto melhor ela comer, menos coliquinha ele vai ter.” Tinha também chazinhos, sempre disponível em uma jarra na cozinha e um bolinho para a tarde. Infindáveis pães caseiros, cada vez de uma cor, saíam do forno na semana. Cabelinho de anjo, franguinho, e nem sei mais quantas coisas gostosas e especialmente feitas para ela.
Para o bebê, entre 20h e 00h, ele ficava no quarto dela dentro do moisés. As inúmeras trocas de fraldas e de roupas. “ — Vou embora sem me lembrar de fechar o bodyzinho…”. Ato falho, por qualquer razão ela sempre esquecia de abotoar entre as perninhas dele a roupinha, e voltava refazer o que esquecia. Entre 00h e 5h ficava no nosso quarto, quando entrava o meu turno com ele acordado entre 1h e 3h. Bastava ele chorar que ela saía como um raio pelo corredor para pegar o bichinho de volta. A gente tinha que disfarçar e insistir para que ela descansasse um pouco. Músicas de ninar ela lembrou algumas da sua época e inventou tantas outras divertidíssimas ao longo dos dois meses. Bracinho firme dela segurava esse menino horas e horas a fio durante o dia para que a mãe pudesse descansar um pouco. Sabe que ela chegou a comprar uma passagem de volta para casa para visitar o marido e o filho por alguns dias mas minha mulher, sorrateiramente — no bom sentido — organizou do pai e do irmão virem para São Paulo buscar ela duas semanas mais tarde. Bateu aquele medo sabe?! E na sequência aquele alívio de que ela ficaria e o plano tinha dado certo.
Para mim, não sei nem como agradecer. Para ela eu fiz um insta para interagir com a família, open-bar de manicure e pedicure no tempo que esteve aqui e comprei um tablet de presente para ela assistir as coisinhas dela em uma tela maior. Não dá para comparar o presente que recebemos com os que pude dar.
Essa crônica fica para o Chico (meu filho) um dia saber um pouco do tanto de amor que ele recebeu nos primeiros dias de vida dele. Esse sim vai logo logo descobrir o que é saudades…mas logo estaremos juntos de novo no verão.
Vovó Dete
Muito obrigado por tudo sogrinha, a senhora é gigante!
Publicada originalmente no Medium. Ver no Medium.
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