Leopoldo JereissatiFala Man

25 dez 2020 · 7 min de leitura · Especial de fim de ano

Missa de Natal

Nascimento de Jesus

— Vou na missa das cinco; mais cedo não atrapalha ninguém! Disse meu sogro.

— Vou com você. Posso? Perguntei no impulso enquanto minha esposa me olhava surpresa, sabendo que eu não tenho o hábito de ir.

— Reza por mim. Som da voz da minha sogra no fundo para o meu sogro.

— Vocês estão sempre nas minhas orações. Disse ele; hábito de muitos incluir familiares e amados nos momentos de fé.

— Quero agradecer por tudo nesse ano. Sussurrei no pé do ouvido da Lu, e saímos a pé para a igreja matriz.

No caminho fomos batendo papo à toa, e assim que chegamos próximo ao estacionamento meu sogro ficou espantado com o número de carros que viu. — Chii…eu achei que mais cedo a igreja fosse estar mais vazia, mas pelo visto… Vamos ali para o fundo, que ficamos mais tranquilos. Senti sua preocupação com a possível aglomeração.

Na entrada uma senhora borrifava em cada pessoa que entrava um pouquinho de álcool em gel nas mãos. O som era do coral da igreja com vozes em sua maioria femininas enquanto um homem em contraponto tocava seu violão de metal. Músicas simples soavam todas iguais, suas letras eram projetadas no telão com fundo preto e letras brancas durante o dia enquanto a luz do sol da tarde penetrava através dos vitrais coloridos dificultando a leitura da tela. O padre, na verdade o vigário, logo chacoalhou aquele vasinho com plantas e fumaça e aquele aroma gostoso e familiar tomou conta de todo o espaço. Segundo a igreja católica, esse ritual do incenso eleva nossos corpos e almas a Deus.

— Oremos. Todos se levantam; Oração de São Lucas: Todos fazem três cruzes rápidas, uma na testa uma no peito e outra na barriga talvez? Me perdia.

Me chama a atenção uma família em nossa frente ao se levantarem. Senhor e Senhora de estereótipos muito característicos da região do oeste de Santa Catarina e seus três meninos. O mais velho já quase do tamanho do pai, o do meio com quase a mesma idade e estatura do mais novo, os dois com a mesma polo branca com detalhes em azul na gola e todos os quatro com o mesmo corte de cabelo visto de costas. Fiquei atento ao carinho que recebiam pai e mãe dos meninos, em especial o caçula que apoiava sua cabeça nos ombros do pai constantemente de um lado, enquanto quase que em sincronia e sem saber do irmão, o do meio repetia o gesto no ombro da mãe do outro. O mais velho parecia ter passado dessa fase já, mais independente.

A missa era de natal, e algumas novidades para mim iam surgindo aos poucos. A primeira delas, foi quando uma senhora bem mais velha tocou nas costas da mãe daquela família e todos os cinco se levantaram e rumaram para fora do banco de madeira. Eu imaginei que ela quisesse se sentar e todos estivessem dando passagem mas na verdade ela que coordenava o que estava por vir e os cinco se postaram na entrada do corredor principal, como quando uma noiva entra na igreja. Na fila de trás, filho mais velho e o casal. Fila da frente, os dois de polos brancas iguais; Ahá! Foi de caso pensado eu realizava. Vem da lateral uma terceira pessoa carregando o Menino Jesus de porcelana, do tamanho de uma boneca, e entrega aos dois meninos que seguram juntos, ensaiados, para o carregar até o presépio lá na frente. Quando a senhora mais velha libera a entrada da família pelo corredor, Senhor e Senhora entrelaçam os dedos das mãos e sem dizer nada passam a sensação de mais um ano de dever cumprido para com esses três meninos, com a comunidade local e com eles mesmos que orgulhosos, saiam em direção ao altar. Foi bem tocante isso. Comecei a reparar que diversas famílias presentes tinham algum tipo de gesto, de abraço, de contato de cumplicidade com a cena.

O Padre retoma a missa e segue os rituais. Chega uma outra moça nesse momento e se senta ao lado com seu filho e filha mais nova. Loirinha com as bochechas rosadas de um torrão de sol pela manhã, a pequena não queria ficar com a máscara de jeito nenhum no rosto: “ — Isso me sufoca mãe”. A mãe firme na batalha dela, insistia para ela se manter com a máscara, e como toda mãe, chegou até a trocar as máscaras do Batman do irmão mais velho com a dela para ver se ela sossegava mas sem sucesso. A pequena arteira chegou em toda sua inocência esconder a máscara dela no vão do banco de madeira da frente mas foi flagrada na sua volta e ficou toda sem jeito.

Durante a consagração, todos de joelhos. Particularmente acho o momento mais bonito e mais intenso da missa pois é de joelhos que nos colocamos de baixo para cima, em dor, e agradecemos e pedimos tudo aquilo que passa na nossa cabeça naquele momento. Padre e ajudantes agora saem em direção à todos os fiéis que desejam comungar. Novamente imagino que para evitar aglomeração em fila. Primeiro veio uma mocinha com o spray de álcool gel de novo e na sequência o Padre com a Hóstia. — Eles vão comer aquilo mamãe? Perguntou espontaneamente a Loirinha. Acho que o Vaticano é a única instituição, junto com o McDonalds, que consegue padronizar a receita e o sabor de algo independente da unidade que abrem. O Número 1 é uma hóstia bem branquinha que gruda no céu da boca.

Mais um pouco e todos de joelho começam a se levantar. — Cabô mamãe? Nessa hora me lembrei da sensação quando criança de que as missas eram intermináveis. Entre sermão, muitas vezes dispensado pelo meu pai, e a benção final, passavam-se meses e não terminava. Hoje o tempo voa, a missa voa e estou com 34. Imagino para a maioria ali, com mais de 60 de idade.

Muitos ainda rezavam de olhos fechados, quando entram pela lateral da igreja duas crianças com penduricalhos para vender. Uma moreninha com jeito bugre e a outra de pele albina vendendo Apanhadores de Sonhos — cena pitoresca. O filtro dos sonhos é um amuleto de origem indígena norte americana, e presume-se que esse amuleto pode purificar energias fazendo uma separação dos “sonhos bons” e dos “sonhos maus”, também acredita-se que o filtro dos sonhos auxilia trazendo sorte e sabedoria para quem o possui.

Que curioso, em plena missa, por uma ocasião do destino dois caminhos de fé se encontram e vem pelas mãos de duas crianças.

— Criança é a verdadeira luz, a verdadeira forma do Natal. Dizia o padre durante tudo isso.

Enquanto eu olhava para elas, suas semelhantes — as outras crianças da igreja que também acompanhavam a cena — se aproximavam do seus pais com certo medo e/ou olhavam com julgamento e curiosidade para as duas pequenas que estavam ali fazendo algo muito diferente do que elas de mesma idade. Como pode tanta coisa acontecer durante uma simples missa?!

Começa o Pai Nosso — ápice do evento. Por alguma razão todos se conectam em coro com as mãos para cima emanando energia. Volta em cena aquela senhora mais velha, coordenadora do rolê com a grande novidade da tarde, dessa vez trazendo um casal vestidos de José e Maria, com um bebê de verdade no colo. Como descrever o poder de um bebê recém nascido?

Fé

Assim eu ousaria descrever. O pequeno completava exatos 1 mês de idade dia 25/12. Emocionados, o casal levou a criança até o altar e o ergueu no melhor estilo Rei Leão enquanto todos aplaudiam de pé a linda cena.

Esse ano não fui ao cinema, ao teatro e não viajei para fora. Posso dizer com segurança que essa peça, em função do contexto, foi tão boa quanto qualquer peça premiada da Broadway. Já de volta em casa, em família, minha sogra nos lembrou em meio à troca de presentes que apesar de estarmos recebendo algo hoje, o aniversário era Dele. Para que nós nos lembremos de nos doar mais e de dar mais em 2021 do que fizemos neste ano. Meu sogro pediu, por gentileza, imaginem, se ele podia ler o Salmo 138 para nós. Foi no quarto, buscou aquela bíblia clássica com capa de couro, páginas rosadas com buracos ao lado para se achar mais fácil, e recitou o trecho para nós.

Som de sininhos batendo. É Natal.

Agradeço por 2020 em nome da minha família e em meu nome. Que venha, logo, 2021!

Boas Festas e Feliz Natal.

Ps: respeitando todas as religiões, valorizo a espiritualidade e a fé.

  • Crônica escrita na publicação sobre o cotidiano FalaMan.com.br por Leopoldo G. J., CEO da All Set Comunicação

Especial de fim de ano, enviado pelo autor à sua lista de contatos. Publicada originalmente no Medium. Ver no Medium.