Tempo
Uma pausa para apreciá-lo
Quando eu tinha 12 anos usava um monte de perfumes diferentes. Alguns icônicos tipo Acqua di Giò, Bvlgari, Issey Miyake entre outros que até hoje estão nos cangotes alheios. Tinham noites que eu, antes de sair, colocava minha polo Ralph Lauren — aquela que a parte de trás era mais comprida que a da frente — jeans 501 da Levis, 1600 da New Balance e ficava num baita dilema se passava o CK One ou CK Be.
Um dia o meu pai, acho que já notando isso há algum tempo, chegou para mim antes de eu sair e borrifou o perfume dele em mim. Deu duas sprayzadas nos meus braços, uma no peito e falou:
— “Dá uma esfregada agora, uma espalhada. Isso aqui é perfume de homem. Seu avô usava desde 1960. Eu uso faz tempo, você também vai usar. Daqui para frente você usa só esse — depois vai me agradecer quando lembrarem”.
Faz 22 anos que eu uso a mesma fragrância e confesso que entendi depois de uns bons anos e ao longo desse tempo todo a mensagem que meu pai queria me passar: “nossa que cheiro gostoso”, “que perfume é esse?”, “você ainda tem esse cheiro?”, “o cara não muda”. Essa foi minha primeira aula sobre marca ou Branding — a importância da frequência, consistência e exclusividade do produto na comunicação; 22 anos and going.
Acabei de ficar 30 dias direto em uma casa na praia aproveitando a prestação de serviço remoto. Considerando um ano sem férias em função do ritmo alucinante de trabalho foi uma experiência excelente. Menino da cidade, criado em apartamento, historicamente meu contato com a natureza acontecia nas férias escolares e em finais de semana alternados e feriados. O que acontece nesse espaço curto e intervalado de contato com à natureza é que você se encanta com o nascer e por do sol, com o ar puro, ao ver o mar ou com o som do galo cantando e meio que para por aí — é raso.
Já quando você começa a acompanhar a rotina diária da fauna e da flora do mesmo lugar por 30 dias corridos você começa a ver tudo diferente. Começa a identificar padrões e enxergar o ecossistema — isso é deep dive; e se vacilar começa a dar nome pros bichos e para as plantas também — isso é, naming.
A questão é que se o bem-te-vi pia assim é porque tem alguma ameaça perto: hmm.. era um gato. Se ele bate o bico na borda da piscina fazendo um barulho tipo pica-pau é para intimidar. Os gatos tinham 3 tocas na casa, por baixo do deck de madeira. Todo dia o cinza marcava o terreno com o rabo para cima de manhã, o preto repetia o caminho do cinza a tarde num ciclo interminável de quem manda aqui sou eu. Uma vez a cada 10 dias eles se perdiam no horário e o pau quebrava entre os dois — uééeuuuu — isso é planning (5W2H)
A piscina da casa era na verdade o ponto de água relevante daquele território. É tipo aquele rio na África que seca todo ano e o Discovery filma os crocodilos atacando os gnus desesperados de sede. O Gnu sabe que não pode depender daquele rio para sobreviver mas todo ano tá ali de novo. Alto fluxo, alto giro, alta procura e alta dependência — isso é key-account.
A pequena Cambacica (esse nome eu tive que pesquisar) tinha uma rota definida para beber o néctar das orquídeas. Igual o caminhão de entrega da Ambev, BRF, Nestlé. Ela começava pela muda de cima e fazia um check-point nas quatro outras mudas sempre na mesma ordem para ver se tinha melzinho para ela ali. Eu acompanhei um casal de Rolinhas fazer o ninho do zero; fizeram muito rápido e de forma organizada — Isso é *agile ou *método ágil. Fizeram em 7 dias corridos — uma *sprint *e ao botar os ovinhos (dois), atualizaram as tarefas — o backlog — e começaram a trocar de turnos pelo menos 3 vezes ao dia como os 3 turnos de trabalho — uma chocava outra descansava/saia para se alimentar.
A gente é muito parecido com eles. Nós somos como eles. Uma coisa só. Aí entra o tempo dando aula de empatia e mindfulness nos mostrando que para notar tudo isso, a gente precisa dar mais espaço para ele.
Mara River Kenya — Great Migration
Há 7 anos comecei a postar #cool #creative #changingyourday no Instagram. Associava essas hashtags com alguma imagem inusitada no @all_set_comunicacao e era só. Hoje meus amigos vira e mexe mandam do nada algo legal que viram no grupo e junto com a imagem mandam #Changingyourday . 7 Anos para associar o amigo Leopoldo à criatividade, como associamos o amigo B à joalheria, F à farmacêutica, M à política, A ao varejo popular, R à resinas e assim por diante. Repara que não conseguimos associar alguém à algo além de uma única coisa de imediato — chama *top of mind *na nossa área e leva-se tempo e muito investimento para você associar algo à alguma coisa, a não ser que você seja a Friboi que fez isso muito rápido. Evitem esse case como referência para suas agências a não ser que tenha R$1.000.000.000,00 de reais para investir em marketing por ano além do Tony.
Precisa ter coragem para acreditar nisso e para sustentar o fardo que o tempo traz. Simon Sinek e Leonardo Framil, um uma referência em inteligência emocional o outro CEO à frente da Accenture no Brasil (maior grupo de agências do mundo atualmente), ambos acreditam que coragem é o elemento crucial para a empresa poder vencer ao longo do tempo.
Para validar a tese do tempo, pergunte ao índio quantos verdes ele enxerga. Ao Inuit quantos brancos ele vê. Ao seu professor de viola caipira a profundidade das letras de compositores da cidade versus os que de fato passaram anos no campo. Todos de difícil acesso nos tempos de hoje.
Obrigado pelo seu tempo — isso é coach.
Ps: sobre o uso de “Inuit”; Esquimó (aquele que come carne crua) é como chamar todo oriental de “Japonês”.
Publicada originalmente no Medium. Ver no Medium.
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