Leopoldo JereissatiFala Man

17 ago 2019 · 6 min de leitura · Medium

Muna

A Arte de Receber Bem

Onze horas da manhã de sábado. Chegamos em uma fazenda no interior de São Paulo para nos juntarmos à outros dois casais de amigos. Para nossa surpresa, apesar do horário, todos ainda estavam na mesa tomando café. Suco de laranja, pão-de-queijo, requeijão, um bolo caseiro, frios, mamão e outras frutas. Tinha também uma porção de torradinhas sírias e coalhada seca que não deixava negar a origem da família. Eu já tinha comido mais cedo, afinal saímos por volta das oito horas da manhã de casa, mas não resisti. Mesa posta, guardanapo de pano, descanso de talher e tudo combinando muito. Dei aquela olhada para minha esposa — precisava de um consentimento para a gula — e mandei brasa.

Recanto da Vovó, Paraíso dos Netos

Lá pelo segundo copo de suco e terceiro pão de queijo chega na sala um senhor alto, estiloso, com um óculos de armação preta, moletonzinho bem confortável, tênis de caminhar e um sorriso muito simpático no rosto. Era o avô da nossa amiga no auge dos seus quase 90 anos aparentando setenta e pouco apenas. Minha vontade era perguntar: “Qual é a receita man?”, mas mandei um “Bom dia Tio” — clássico pronome de tratamento aplicado aos parentes de amigos próximos paulistas. Ali ele se sentou e proseamos mais uns 30 minutos. São-paulino roxo, entre as perguntas que ele fazia, uma delas era descobrir se mais alguém da mesa mexia com fazendas, pecuária ou plantações. Dava pra ver o quanto ele gostava do assunto e o quanto ele gostava de estar ali, na dele, junto com a família e com os mais jovens. Ele e a neta iam pondo o papo em dia, nós o conhecendo mais e aprendendo sobre a vida. Dali a pouco ele saiu da mesa para ler o jornal, e nós saímos para fazer esporte: elas foram caminhar e nós fomos bater um tenniszinho — aquele esquema padrão: um da turma joga muito, outro parou de fazer aula há uns meses e tem ainda o outro que não pratica há mais de um ano. Condição ideal para se machucar, não dar jogo, e sair boas risadas.

Chuto ser quinze para as duas da tarde: hora do aperitivo. Eu achei que não teria como eu comer mais, haja visto as duas refeições anteriores e recentes, além do que o almoço estava por sair em alguns minutos. Vai vendo…

Com o cabelo penteado, maquiagem feita e perfumada, vestida no pretinho básico — eis que surge a elegante matriarca da família: a Muna.

— Vamos todos sentando ali ó... Dizia ela.

Era um barzinho de madeira com seis ou oito banquetas em volta e com a placa da imagem acima. Enquanto os aperitivos chegavam em inúmeras bandejas: pistaches Libaneses, azeitonas, pasta de atum maravilhosa, cenouras no sal e otras cositas más, ela nos perguntava:

— Vocês vão beber o que?

Nesse interim o avô se continha pois não podia mais exagerar na dose. Via das dúvidas ele pediu para o marido da neta tirar uma vodka daquelas tops do freezer. Vai que desse vontade né… Era uma bala de prata apenas. Enquanto todos não estivessem com um copo em uma das mãos e beliscando qualquer coisa com a outra, eles não sossegavam. Detalhe que ela já estava servindo os aperitivos em uns potinhos que acabara de ganhar de um dos convidados; quer coisa mais gostosa do que ver gente que já sai usando o presente que ganhou de você na hora?!

A gente se empolgou ali e o almoço foi postergado para as três horas da tarde. Comida boa para a Muna é comida simples e ela sabia como preparar tudo. De casquinha de pastel à quibe cru, ela detalhava as receitas de um jeito que nos deixava com água na boca. Sobre o quibe cru, ela nos ensinava:

— É simples; muito fácil.

E de cabeça recitava uns 27 passos sincronizados com natural propriedade de quem já fez muitas vezes esse prato na vida. Ela sabia onde comprar, onde não comprar. O corte da carne e como amassar o trigo. Quanto colocar de um ingrediente, a sequência e a água gelada. A importância de fazer a receita com as luvas. Do meu lado uma amiga interessada pirava, tentava gravar tudo mas não tinha onde anotar. Do outro lado, a neta dela e a minha esposa se interessavam mais em comer do que aprender os paranauê. 3ª refeição do dia e nem sequer tínhamos almoçado ainda.

Antes de falar do almoço, vou falar de hotelaria, matéria de livre-docência da Muna também. Em região de terra roxa (terra roja = vermelha) é muito difícil manter a casa limpa, mas ela mantinha. Extremamente limpa. Envernizada praticamente. Família grande, quartos numerados, toalhas numeradas, pasta de dente e sabonetes novos em cada quarto, treco de matar pernilongo na tomada — desligados de dia, ligados ao entardecer. O quarto é reorganizado algumas vezes ao longo da tarde. Não dá para saber quantas vezes porque você não as vê organizar; outra virtude da hotelaria é ser invisível. Cama impecável, lençóis gostosos. Na minha cabeça passava: como se surpreender várias vezes ao dia? Disk-Muna! O que mais me impressionou foi tamanha sofisticação traduzida em grande simplicidade; é uma casa aconchegante e sem frescura nenhuma apesar de tudo isso.

“Casa arrumada, é uma Casa triste” — Mario Sergio Cortella.

Eu tinha absoluta consonância com essa frase até conhecer a Muna: a melhor síntese de “sinta-se em casa e aprenda como se faz”. Ali não tem arrumação; tem gestão. Não tem chefia; tem liderança, tem risada larga e muito amor também.

O almoço foi demais. Me lembro bem do cordeiro que serviram no dia. Me lembro também dos avós nos contando que dos dois saíram 36 pessoas que hoje compõem a família em algumas gerações.

— Já não conseguimos mais acomodar todos aqui de uma vez no final de semana. Ela lamentava com saudades.

— Ainda mais agora que vamos passar a vir direto para cá; dizia um convidado tão feliz quanto eu de estarmos desfrutando aquele momento único juntos com eles...rs. Rimos muito durante o almoço.

Uma coisa fofa que rolou também na mesa é que virava e mexia a Muna fazia carinho na mão do marido. Perguntava à ele se estava tudo bem, se ele havia pegado um pedaço mole do cordeiro. Ela cuidava dele, ele cuidava dela enquanto vários* rounds* de pastéis passavam.

Mais tarde quando saíamos para festa, vimos os dois em uma salinha jogando tranca, tomando sopa e batendo papo. Coisa linda o amor nessa altura da vida. Quanto mais o tempo passa mais damos valor à momentos gostosos em família e amigos. Voltando para São Paulo minha esposa me perguntou: — Será que vamos ficar juntos tantos anos assim como eles? Acho que só de lembrar dessa nova referência para a gente já aumentamos significativamente as nossas chances.

Obrigado pelo carinho e pelos pastéis =)

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